domingo, 2 de fevereiro de 2014

Retorno


RETORNO
Meu ser em mim palpita como fora 
do chumbo da atmosfera constritora. 
Meu ser palpita em mim tal qual se fora 
a mesma hora de abril, tornada agora. 

Que face antiga já se não descora 
lendo a efígie do corvo na da aurora? 
Que aura mansa e feliz dança e redoura 
meu existir, de morte imorredoura? 

Sou eu nos meus vinte anos de lavoura 
de sucos agressivos, que elabora 
uma alquimia severa, a cada hora. 

Sou eu ardendo em mim, sou eu embora 
não me conheça mais na minha flora 
que, fauna, me devora quanto é pura. 


© CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE 
In Fazendeiro do Ar, 1954

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